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1 de fev de 2013

Yemanjá e a dança sagrada das águas



Hoje, falarei do simbolismo da dança de Yemanjá. Yemanjá é uma yabá que todos já ouviram falar e quem me conhece sabe como sou apaixonada por ela. Sempre que penso em Yemanjá, vem aquela imagem de rainha, soberana, a grande mãe que acolhe seus filhos e que os educa com rigor...No xirê, suas cantigas são o som das águas do mar batendo nas rochas, encantando e embalando a tod@s.



 


Na tradição dos orixás, uma mulher tem suas diversas faces, sem que uma anule a outra. Me incomoda quando Yemanjá é vista apenas como mãe (é óbvio que a maternidade é uma das características marcante dela), mas ela é também amante, guerreira, responsável pelo equilíbrio emocional de tod@s:
 
Se a sociedade patriarcal reduz a sexualidade feminina apenas à procriação, as deusas africanas são mães e amante. Iemanjá, mãe dos orixás, enfeitiça os homens e os atrai ao seu grande ventre (o mar). Ela os devora porque é de temperamento apaixonado e instável, ciumento e possessivo, ela é o mar, calmo e plácido, violento e destruidor. Ela rejeita os filhos, ela os ama com furor” (Instituto Geledés, 1993).


Para falar da dança sagrada das águas, utilizarei do texto de BARBARA (2002):

A dança sagrada contempla dois aspectos: um lado exterior e um lado interior.
O primeiro é transmitido por meio dos movimentos, as roupas litúrgicas e os objetos sagrados. As roupas litúrgicas, os materiais com os quais são costurados nos contam as fontes de subsistência (por exemplo uma roupa de conchas mostra que aquela comunidade vive de pesca) e nos indica qual seja a sua posição na hierarquia social (através da posição de algumas partes do vestido percebe-se se são mulheres iniciadas ou não e há quanto tempo; se são filhas de uma divindade feminina ou não, etc.).
 
 
Os objetos sagrados relatam: a qualidade do orixá, a sua ligação mitológica e a sua função cósmica. Por exemplo o abebé, um leque e a espada de Iemanjá relatam seja o lado guerreiro da deusa seja a sua ligação com o mundo feminino relatado por meio da forma redonda do abebé e da cor de prata do mesmo que lembra a lua, o elemento do feminino por excelência.
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O segundo é a transformação interna em algo outro, diferente da identidade cotidiana, é o duplo espiritual que encontra-se no orum. O aspecto interior da dança é a metamorfose que acontece dentro da sacerdotisa ao longo do transe. Este fenômeno, do qual muito se escreveu, mas sem alcançar uma explicação exaustiva devido ao fato de ser uma experiência de fé, intima e preciosa e por isso dificilmente compreendida por aqueles que não a experienciaram.

Tanto a música, quanto a dança que a acompanha expressam o caráter do orixá e os acontecimentos da sua vida. As histórias míticas, as qualidades, as virtudes e as falhas dos orixás são passadas aos fiéis através das letras das cantigas. A concentração e a busca interior permitem expressar a própria música e a própria gestualidade, que é única e pessoal e que corresponde à "qualidade"  de cada orixá.

Iemanjá dança com movimentos de menor dimensão horizontal. Quando Iemanjá locomove-se como onda, por exemplo, ela ocupa um espaço mais em vertical e também seu movimento é um andar e um vir para si mesma, é um movimento mais introspectivo, mais ligado à interioridade.
O nível da dança de Iemanjá é de médio a baixo. Quando Iemanjá dança representando a onda do mar, o corpo permanece mais nesses dois níveis. Ela expressa o lado feminino da fecundidade, da reprodução, do interno e, por isso, é mais chegada ao nível baixo, aos órgãos sexuais e da reprodução, ao útero, Iemanjá é mais estática, anda devagar como uma grande rainha, e constrói ao seu redor círculos concêntricos que vão sumindo aos seus limites.
As danças de Iemanjá são constituídas por movimentos amplos, os pés posam mais no chão, a demostrar o equilíbrio, enquanto os braços movimentam-se com grande fluidez. O corpo está levemente dobrado para o chão em uma forma redonda a lembrar a forma materna da deusa e a sua disponibilidade em acolher e em conduzir, o corpo todo expressa o movimento rítmico das ondas, mas também o mistério da água que traz do fundo do mar para as superfícies as riquezas e o encanto do mar.

A forma do círculo tem uma grande importância na África, Neumann (1981:214), simbolizando a Grande Mãe, que em si contém os elementos masculinos e femininos. Por isso as coreografias referentes às divindades da Água, possuem um movimento circular.




Escolhi esses dois vídeos que trazem as lendas, cantigas e dança dessa grande Mãe:

1-


2-








E quem for fazer oferenda amanhã a Yemanjá, use o bom senso, orixá é força da natureza, então não polua os mares, use materiais que não agridam o reino da Grande Mãe.



ODOYÁ!!!!




Referências

Barbara, Rosamaria.  A dança das Aiabás: dança, corpo e cotidiano das mulheres de candomblé. 2002. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-09082004-085333/pt-br.php
Cadernos Geledés IV: http://www.geledes.org.br/geledes/o-que-fazemos/9556-cadernos-geledes-edicoes-comemorativas-de-23-anos

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